AAAAJUDICIARIO

 

Meu pai era juiz. Chegou ao ponto em que poderia ser desembargador. Não chegou porque não quis. Pediu aposentadoria antes. Não por cansaço, não por doença, não por falta de ambição. Pediu porque, segundo ele, tinha vergonha.

 

Tendo  sempre como maior preocupação não condenar um inocente e não absolver um culpado, ele alegou à época sentir vergonha de algumas decisões que via dentro do próprio tribunal. Vergonha de colegas que, segundo ele dizia já há mais de trinta anos, julgavam processos conforme a cara do réu, das conveniências, simpatias ou interesses que nada tinham a ver com a lei. Na época achei exagero. Jovem, eu queria vê-lo chegar ao topo do Judiciário gaúcho. Mas ele preferiu sair pela porta da frente de forma honrosa.

 

Hoje, como advogado e  observando  diariamente  algumas decisões que são proferidas, entendo perfeitamente. E dou total  razão ao meu saudoso pai. Ele, como um homem inteligente e sábio que sempre foi,  fez o certo.  Ou pelo menos fez aquilo que um cidadão de bem e um espírito de luz faria. 

 

Basta olhar para a podridão do estado atual do Judiciário brasileiro — especialmente da nossa corte suprema, a qual poderia se chamar a Corte da Suprema Vergonha. O que deveria ser o guardião da Constituição virou, para muitos brasileiros, um poder que parece não responder e nem dar satisfação  à ninguém, com seus integrantes se protegendo - afinal, todos tem o rabo preso -  desdizendo o que um dia firmaram como juriosprudência   e ainda se colocando acima do bem e do mal. A distância entre o cidadão comum e aqueles onze ministros já não é apenas institucional. É quase olímpica.

 

CORRUPÇÃO ESCANCARADA 

 

Ao mesmo tempo em que surgem notícias, suspeitas e relações estranhas entre poder, dinheiro e influência, reina um silêncio constrangedor das instituições que deveriam defender a integridade da Justiça. Entre elas, a própria Ordem dos Advogados do Brasil - que sequer defende a própria classe - e até mesmo a Procuradoria Geral da República, e que historicamente se apresentaram  como voz da legalidade, mas que hoje parecem assistir a tudo com uma discrição e conveniência  que beira a omissão. Pergunta-se: acreditar em quem quando a própria OAB e a PGR agem assim?

 

A confiança na Justiça não se destrói de uma vez. Ela se desgasta aos poucos — decisão após decisão, silêncio após silêncio.

 

Meu pai morreu com pouco dinheiro na conta depois de trinta anos de magistratura, ou seja, com pouco mais de R$ 190 mil reais em sua conta bancária, economia que certamente não paga sequer uma rodada de uísque Macalan e de charutos consumidos pela caterva num pub em Londres, cujos gastos resultaram em inacreditáveis R$ 3,5 milhões de reais. 

 

Mas morreu com algo que hoje parece raro em certas alturas da República: pudor.

 

Ele preferiu não subir na carreira para não compactuar com o que via.

 

Trinta anos depois, olhando para o espetáculo institucional que o país assiste, fica difícil não pensar que talvez ele simplesmente tenha percebido o problema antes de todo mundo. ⚖️