
Há políticos que escolhem as suas batalhas com lupa. Outros escolhem com saudosismo. O vereador Kempes Nevilles, o popular Bolinha, que tantas vezes tem demonstrado coragem e independência — qualidade raríssima em tempos de plenários coreografados — resolveu agora mirar sua artilharia justamente contra o relógio do Carnaval. Sim, o relógio.
Segundo ele, o modelo atual, que antecipa as grandes atrações para horários mais civilizados, seria uma espécie de heresia contra a tradição momesca. Traduzindo: o bom mesmo era quando o sujeito precisava de um GPS, duas latas de energético e uma crise existencial para conseguir assistir à atração principal às três da manhã.
É aqui que convém fazer uma pausa para lembrar: tradição é algo bonito quando não exige atestado médico no dia seguinte.
O PAI DA CRIANÇA (COM CERTIDÃO EM CARTÓRIO)
Sem falsa modéstia — que é um vício nacional — vale recordar que a discussão sobre mudar o horário do Carnaval de Porto Seguro começou a ser provocada justamente por mim, lá atrás, em 2012 ou 2013, em um tempo em que o meu desejo pessoal não era era apenas vencer a eleição municipal a qualquer custo para ficar rico ou para arrumar uma boquinha na prefeitura, mas, sim, apenas ajudar a melhorar a cidade que escolhi para viver. Nada mais do que isso.
E essa discussão não nasceu em mesa de bar às quatro da manhã, mas em conversas sérias com a então prefeita, seu esposo Robério e o vice Beto Axé Moi, deixando claro que não foi nada fácil dobrar e convencer Robério, dono de trios e já acostumado ao antigo modelo há muitos anos.
A ideia era simples: por que gastar milhões numa festa cujo público-alvo era exclusivamente o “folião individual”, aquele espécime que sai sozinho, volta escoltado por amigos e acorda dois dias depois perguntando onde está o chinelo?
O modelo antigo era uma ode à madrugada profunda. As melhores atrações subiam ao palco à 1h, 2h, às vezes mais tarde. Encerrava-se às seis da manhã, horário em que o cidadão comum já está preparando o café ou a oração do dia. Resultado: famílias, casais, pessoas da melhor idade, pais com filhos — todos ficavam de fora. O Carnaval era praticamente um clube fechado para quem tivesse resistência hepática suficiente.
A GERAÇÃO SAÚDE BATE À PORTA (E NÃO É ÀS TRÊS DA MANHÃ)
Os tempos mudaram — ainda que alguns insistam em manter o fígado como patrimônio histórico.
Hoje vivemos a geração saúde. O sujeito faz jejum intermitente, conta passos no relógio inteligente, troca cerveja por água com gás e ainda posta a corrida no Instagram. O Carnaval precisa dialogar com essa realidade. Não se trata de acabar com a festa, mas de ajustar o horário à civilização.
Antecipar as grandes atrações para as 20h e mantê-las até a meia-noite não é um ataque à alegria. É um convite à participação. Permite que famílias inteiras ocupem a Passarela, que pais levem filhos para ver os bloquinhos, que o folião dance e ainda acorde no dia seguinte antes do meio-dia — milagre que a medicina ainda estuda.
Depois da meia-noite? Ora, deixem que toquem as atrações menores. Como se diz com sabedoria popular: depois de certo horário, todos os gatos na Passarela são pardos — e qualquer batida serve para quem já decidiu transformar a madrugada em laboratório etílico.
ECONOMIA NÃO DORME ATÉ DUAS DA TARDE
Há também um detalhe que costuma escapar aos românticos da madrugada: economia.
Quando o Carnaval termina à meia-noite, a cidade acorda cedo. Praias cheias, restaurantes funcionando, comércio girando, ambulantes vendendo, hotéis movimentados. Quando termina às seis da manhã, a cidade amanhece vazia e só volta à vida às 14h — com sorte.
O vice-prefeito Paulinho Toa Toa, um expert no assunto, sabe disso melhor do que ninguém: horário adequado amplia o público e distribui renda. A festa deixa de ser uma maratona alcoólica e passa a ser um evento econômico completo.
Mas talvez o romantismo da ressaca seja mais sedutor do que o pragmatismo das planilhas.
A PREFEITURA E O RELÓGIO QUE SEMPRE ATRASA
Agora, se há algo que merece crítica sem qualquer ironia é a insistência da prefeitura em anunciar as atrações praticamente em cima da hora.
Carnaval não é festa surpresa de aniversário. O turista precisa de planejamento. Passagens custando quatro ou cinco mil reais não são compradas por impulso, como quem pega chiclete no caixa do supermercado.
Anunciar atrações uma semana antes é pedir que o público de fora escolha Salvador, Recife ou Rio de Janeiro — cidades que divulgam sua programação com antecedência estratégica. Resultado? Este ano, ao que tudo indica, tivemos um dos carnavais mais fracos da última década. Procura por imóveis? Zero. Booking e Airbnb? Silêncio constrangedor.
E não adianta alegar dificuldade para contratar bandas. Se Salvador, Recife e Olinda conseguem organizar suas agendas com meses de antecedência, Porto Seguro também pode. Falta menos talento artístico e mais logística administrativa.
O CARNAVAL QUE QUEREMOS
Não se trata de acabar com a boemia. Quem quiser virar a madrugada continuará encontrando palco, som e companhia. Mas o modelo antigo, centrado na madrugada como horário nobre, está superado.
O Carnaval moderno é inclusivo. É familiar. É saudável — ainda que permita exageros pontuais. Ele não precisa começar quando a maioria das pessoas já está lutando contra o sono.
O vereador Bolinha, que tantas vezes tem acertado, desta vez pisou na bola. O novo horário não exclui; amplia. Não empobrece; fortalece. Não esvazia; qualifica.
E, convenhamos, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu — mas também não é preciso que o trio espere todo mundo quase morrer de sono para começar a tocar.