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Há cidades que enfrentam enchentes. Outras, secas. Eunápolis enfrentou Cordélia.

 

Não se trata aqui de fenômeno meteorológico, embora os estragos tenham sido semelhantes. Foi na verdade um furacão administrativo, com  efeito arrasa-quarteirão.

 

Quando Robério Oliveira assumiu a prefeitura, encontrou aquilo que todo gestor teme: cofres combalidos, serviços públicos desorganizados e, no caso mais sensível de todos, a saúde pública à beira da UTI — sem respirador.

 

Convém dizer, antes que alguém afine os violinos da suspeita: reconhecer um acerto não transforma ninguém em puxa-saco. Em política, elogio criterioso é tão raro quanto prestação de contas clara. Mas os fatos existem — e, às vezes, insistem em aparecer.

 

O HOSPITAL QUE PRECISAVA DE SOCORRO

 

O Hospital Geral de Eunápolis não precisava de discurso. Precisava de estrutura. Tomógrafo funcionando, leitos organizados, fluxo interno racional. Coisas básicas, mas que no Brasil costumam ser tratadas como inovação tecnológica de ponta.

 

A recente entrega da nova sala de tomografia — equipamento de mais de R$ 3 milhões, com apoio do Governo do Estado — não é detalhe de marketing. É diferença entre diagnosticar um AVC em minutos ou em horas. Na saúde pública, minutos têm a deselegância de separar vida e morte.

 

A ampliação da enfermaria clínica cirúrgica e a nova sala de medicação também não são enfeites de inauguração com placa e fita. São medidas administrativas que reorganizam o caos. E, no setor público, organizar o caos já é uma pequena revolução.

 

A FROTA QUE ANDAVA (OU NÃO ANDAVA)

 

Outro símbolo do “antes” era o SAMU. Frota sucateada, veículos cansados, ambulâncias que precisavam de reza brava antes de sair para atender ocorrência. Hoje, com a renovação viabilizada via PAC Saúde, o serviço opera com 100% da frota renovada.

 

Pode parecer trivial para quem nunca precisou de uma ambulância às três da manhã. Não é.

 

Ambulância não é carro oficial para desfile. É instrumento de sobrevivência. Reduzir tempo de resposta não rende votos imediatos, mas salva gente — o que deveria ser a primeira função de qualquer governo minimamente civilizado.

 

A TROCA DE COMANDO E A PEDRA NO SAPATO

 

Robério também fez algo que poucos gestores fazem com naturalidade: reconheceu o erro na contratação do IGH, rescindiu contrato após bloqueio judicial de mais de R$ 1,3 milhão e partiu para outra solução.

 

A entrada do IDES na gestão hospitalar, ainda cercada de questionamentos e exigindo máxima transparência — como deve ser em qualquer administração pública — é mais uma tentativa de colocar ordem na casa.

 

É legítimo que haja fiscalização. É saudável que a Câmara acompanhe. É indispensável que a população cobre clareza nos contratos. O que não é razoável é fingir que manter o modelo anterior, já comprometido judicialmente, seria sinal de responsabilidade.

 

Entre insistir no erro e tentar corrigir o rumo, a segunda opção costuma ser menos confortável — e mais necessária.

 

A POLÍTICA E A REALIDADE

 

Há quem espere milagres administrativos em cem dias. Outros exigem que o prefeito resolva em um semestre o que foi desorganizado em anos. Não funciona assim. Gestão pública não é botão de reset.

 

Eunápolis enfrenta desafios estruturais nas finanças, na educação, na infraestrutura. A saúde, tendo à frente a competente  secretária Livia Souza,  contudo, era o incêndio mais urgente. Priorizar o hospital foi uma escolha política — e, ao que tudo indica, acertada.

 

Isso não significa carta branca. Significa apenas reconhecer que, no meio da tempestade, houve decisão.

 

ENTRE A PROPAGANDA E O FATO

 

O Brasil tem um vício antigo: transformar qualquer ação administrativa em peça publicitária. É preciso cuidado para não confundir entrega concreta com release otimista.

 

No caso do HGE, porém, o tomógrafo existe. A enfermaria foi ampliada. A sala de medicação funciona. A ambulância está rodando. São fatos verificáveis, não metáforas eleitorais.

 

Se a gestão do IDES dará certo? O tempo dirá — e a fiscalização também. Se a reorganização da saúde será sustentável? Dependerá de gestão, planejamento e dinheiro, esse item sempre escasso.

 

Mas negar que houve movimento concreto seria tão equivocado quanto afirmar que tudo já está resolvido.

 

CONCLUSÃO SEM FANFARRA

 

Robério não recebeu uma prefeitura pronta para corte de fita. Recebeu um cenário de reconstrução. Está acertando sempre? Improvável. Está tentando reorganizar a área mais sensível da administração? Evidente.

 

E, em política municipal, onde muitas vezes se troca o essencial pelo espetáculo, já é alguma coisa.

 

A saúde de Eunápolis não será recuperada por discursos inflamados nem por torcida organizada contra ou a favor. Será recuperada por gestão contínua, vigilância pública e menos vaidade administrativa.

 

Se o furacão passou, agora começa o trabalho menos glamouroso: reconstruir tijolo por tijolo — e prestar contas de cada um deles.