
Porto Seguro tem hoje uma autoridade que não foi eleita, não passou pelo voto e, ao que tudo indica, também não passa por nenhum tipo de freio. Ainda assim, manda, desmanda — e manda muito.
O nome do órgão é PORTRAN. Mas, na prática, muita gente na cidade já enxerga de outro jeito: um balcão de multas com dono.
Porque não é mais possível tratar como coincidência o volume absurdo de autuações, a repetição de relatos de abusos e a sensação generalizada de que existe ali uma máquina funcionando com um único objetivo — arrecadar. E rápido.
Só que toda máquina tem um operador.
E é aí que a história começa a ficar interessante — ou preocupante, dependendo do ponto de vista.
VELHO CONHECIDO
O diretor da PORTRAN, figura conhecida na cidade e, diga-se de passagem, muito mal avaliada por quem paga imposto, parece ter desenvolvido um tipo raro de poder: **o poder sem limite. Age com desenvoltura inacreditável, fala com arrogância, impõe decisões e, segundo comentários que circulam com força nos bastidores, não se constrange nem diante de autoridades do próprio governo municipal.
Não é normal. Não é administrativo. Não é aceitável.
E, ainda assim, continua. Nem mesmo o prefeito parece ter comando sobre o cidadão.
A pergunta que ecoa nas ruas, nos comércios e até dentro da própria prefeitura é simples e direta: por que esse homem continua no cargo? Afinal, qual o receio do prefeito em demiti-lo?
Porque não se trata apenas de estilo duro de gestão. Se fosse isso, vá lá. O problema é outro. É o conjunto da obra: denúncias de excesso, relatos de multas no mínimo questionáveis, comportamento incompatível com a função pública e, acima de tudo, uma sensação de que ninguém consegue — ou quer — colocar um freio.
OU SERÁ QUE ELE SABE DEMAIS?
E quando ninguém consegue mexer, duas hipóteses surgem:
ou o sujeito é indispensável…
ou sabe demais.
Enquanto isso, o prefeito segue em silêncio. Um silêncio que, neste caso, não ajuda — só alimenta mais dúvidas. Afinal, estamos falando de um gestor experiente, que já conhece os atalhos e armadilhas da máquina pública. Não é alguém ingênuo.
Então fica a dúvida inevitável: é omissão ou é receio?
O FAZ DE CONTA DA CÂMARA
E a Câmara de Vereadores? Em que pese o vereador Cassio Campeche tenha protestado nessa quinta-feira, essa parece assistir a tudo como quem vê um filme repetido. Reclama, faz discurso, ensaia indignação — mas não chega ao ponto central: abrir uma CPI e investigar de verdade o que está acontecendo dentro da PORTRAN e para onde vão parar os milhões de reais arrecadados mensalmente com as multas. Esse é o grande X da questão.\.
Porque, sejamos francos: se há uma arrecadação milionária, se há suspeitas consistentes e se há um diretor cercado de controvérsias, não existe justificativa plausível para não investigar.
Ou existe — e ninguém quer dizer qual é.
No meio disso tudo, sobra para o cidadão comum, para o pobre trabalhador, como fizeram com o empresário Samaicon Sacramento e seu pai nesta semana. Multado, pressionado, tratado como fonte de receita. Porto Seguro, que sempre viveu do turismo, agora parece viver também de um outro fluxo: o da notificação.
E assim a cidade vai tocando — com um diretor que manda demais, um prefeito que fala de menos e vereadores que fazem quase nada.
No fim, fica a impressão de que a PORTRAN não organiza o trânsito. Organiza a arrecadação.
E o resto… que se vire.