AAAAGUERRA

 

Há uma espécie de adolescência permanente rondando boa parte do debate político brasileiro. Não aquela adolescência inocente, de espinhas e sonhos revolucionários de diretório acadêmico, mas uma versão mais sofisticada — e talvez mais perigosa — do sujeito que envelhece sem jamais abandonar a convicção infantil de que a culpa da própria vida pertence sempre ao outro.

 

O curioso é que esse discurso costuma vir embalado como superioridade moral. O cidadão não fracassou; fracassaram com ele. Não tomou decisões ruins; foi “o sistema”. Não existe responsabilidade individual — existe capitalismo, patriarcado, colonialismo, homofobia, misoginia, racismo estrutural, opressão climática e qualquer outra palavra suficientemente grande para aliviar o peso da consciência.

 

É um fenômeno moderno: adultos de 40 ou 50 anos falando como crianças de 8. Sempre há um irmão culpado pelo copo quebrado.

 

A VÍTIMA EM BUSCA DO TUTOR

 

A política descobriu cedo a utilidade disso. Um eleitor que acredita ser permanentemente vítima tende a procurar permanentemente um tutor. E nada produz dependência mais eficiente do que convencer alguém de que sua liberdade é perigosa demais para ser exercida sozinho.

 

O problema é que essa infantilização coletiva não produz justiça social; produz cidadãos emocionalmente terceirizados. Pessoas que transferem ao Estado não apenas o sustento, mas também a responsabilidade pelos próprios erros, frustrações e escolhas.

 

Mas a essa altura convém fazer uma pausa no fanatismo de arquibancada. Porque tanto a esquerda como a direita brasileira, frequentemente, caem  no mesmo vício moral que tanto criticam. Apenas trocam os santos do altar. Condenam o assistencialismo enquanto pedem privilégios para os seus; criticam a censura quando é vítima dela, mas aplaudem quando atingem o adversário; exigem ética pública até o momento em que o corrupto útil aparece vestindo a camisa ideológica correta.

 

A esquerda brasileira possui sua moralidade seletiva. A direita também. Ambas transformam princípios em instrumentos ocasionais de conveniência política. O mais difícil é apenas descobrir quem mente mais.  

 

E é justamente aí que mora o perigo dos extremismos.

 

O PERIGO DOS EXTREMISTAS

 

O extremista nunca busca compreender; ele busca pertencer. Precisa odiar para manter viva a própria identidade. O mundo passa a ser dividido entre “os conscientes” e “os inimigos”. A realidade deixa de importar. O importante é proteger a sua tribo.

 

Nesse ambiente, toda crítica vira “fascismo” para uns e “comunismo” para outros. O debate desaparece e sobra apenas um campeonato de indignação moral transmitido em tempo integral pelas redes sociais.

 

Naturalmente, isso não transforma a esquerda ou a  direita em guardiãs da maturidade. O Brasil já produziu conservadores tão histéricos quanto os revolucionários que combatem. A diferença costuma ser apenas estética: uns gritam “opressão”; outros gritam “civilização”. Ambos frequentemente terceirizam o pensamento.

 

Mas existe algo particularmente sedutor na política emocional contemporânea: ela oferece absolvição instantânea. Você nunca é culpado. Basta pertencer ao grupo correto.

 

É uma religião confortável. Dispensa autocrítica, elimina responsabilidade e ainda garante aplausos nas redes sociais.

 

O resultado é um país cheio de causas grandiosas, indignações performáticas e cada vez menos adultos.