
Pergunta errada. A pergunta certa é: em quantas parcelas?
De tempos em tempos, surge nas redes sociais aquela indignação de ocasião: “Os vereadores são todos submissos ao prefeito!” Como se fosse uma descoberta científica. Como se alguém tivesse encontrado vida inteligente em Marte — ou, mais improvável ainda, independência em Câmara Municipal.
Há quem imagine que a cooptação acontece depois da eleição. Que o sujeito entra puro, quase virginal, na política, e só então é seduzido pelas tentações do poder. Uma espécie de Adão municipal mordendo a maçã do orçamento. Lamento estragar o enredo: o pecado original começa muito antes. Começa na filiação.
TOMA LÁ DÁ CÁ...
A política municipal brasileira — salvo raríssimas e honrosas exceções — já nasce com nota fiscal. Primeiro compram-se os partidos. Não as ideias, porque isso exigiria ideias. Compram-se as siglas. Presidentes partidários recebem sua “lembrança”, formam alianças, sorriem para a foto e anunciam a “construção de um projeto coletivo”. Coletivo, claro — de arrecadação.
Depois vêm os pré-candidatos a vereador. Esses, mais pragmáticos, preferem dinheiro vivo. Nada de PIX sentimental. É na hora, em espécie, porque idealismo não paga boleto. E assim, antes mesmo de pedir voto, o sujeito já pediu depósito.
Resultado: a política municipal nasce corrompida no berço. O candidato a prefeito que não entendeu isso pode desistir e abrir uma padaria — vai ganhar mais e com menos hipocrisia. Como já disseram velhos caciques locais, antes de reunir o povo, é preciso reunir dinheiro. Muito dinheiro. Quem acha que eleição majoritária é briga de “menino barrigudo” provavelmente nunca viu a planilha de gastos.
UMA MONTANHA DE DINHEIRO
Fala-se em cifras que fariam corar executivo de multinacional. Milhões gastos antes mesmo do primeiro santinho tocar o chão. Há quem receba centenas de milhares para simplesmente se filiar e declarar apoio. Três milhões só para montar o time. Tudo legal? Pergunta ingênua. Tudo comum? Aí já estamos mais próximos da verdade.
E o eleitor? O eleitor recebe o espetáculo. Vê candidatos posando de vestais da moralidade, prometendo “renovação”, “transparência” e “compromisso com o povo”. O povo, coitado, acredita que está escolhendo representantes. Na prática, está apenas homologando um acordo comercial fechado meses antes.
Para ser vereador, convenhamos, não é preciso currículo brilhante. Basta gogó, estômago forte e ausência de pudor. Votos se arranjam com promessas de emprego, favores, pequenos benefícios. E, claro, com dinheiro — porque ainda há quem trate voto como mercadoria de balcão. Democracia versão atacado.
E depois? Depois vem o teatro da independência. Discursos inflamados, apartes indignados, requerimentos protocolados com pompa. Tudo muito bonito até a hora da votação que realmente importa. Nessa hora, o voto costuma ter dono. E não é o eleitor.
A ARMA DOS PREFEITOS
O prefeito, que também não nasceu ontem, entende perfeitamente o jogo. Se já ajudou lá atrás — na filiação, na campanha, na montagem da chapa — por que pagaria duas vezes? Quando o caixa aperta, substitui-se a “ajuda” por cargos. Empregos para familiares, assessores, aliados. E, se o vereador resolver criar asas, basta ameaçar cortar as nomeações. Milagre: a consciência do edil se alinha instantaneamente ao interesse do Executivo. Afinal, a demissão do seu pessoal criaria um grande e insolucionável problema para o edil.
É duro? É. É exagero? Perguntem aos ex-vereadores.
Aliás, essa é uma pergunta que raramente se faz: quantos realmente melhoraram de vida depois da passagem pela Câmara? Quantos sentem orgulho dos próprios discursos? Quantos desejam voltar para repetir a experiência? E, mais importante: quantos conseguiriam olhar o eleitor nos olhos sem recorrer ao manual do camaleão? Certo é que, de modo geral, todos saem pior do que entraram.
Houve um tempo — sim, ele existiu — em que vereadores tinham ao menos vergonha na cara. Não eram santos, mas defendiam posições. Perdiam votações, mas não perdiam a dignidade. Hoje, o Legislativo municipal virou, em muitos lugares, sinônimo de esculhambação institucionalizada. Quem ousa discordar é tratado como ingênuo — ou pior, como ameaça ao sistema.
E aqui está o ponto que realmente importa: o vereador não é eleito para ser funcionário do prefeito. Não é assessor de luxo, não é despachante de favores, não é gerente de folha paralela. Vereador existe para fiscalizar, legislar e representar o cidadão. Quando abdica disso para servir ao Executivo, transforma a Câmara em cartório de homologação.
A CULPA MAIOR É DO ELEITOR MESMO
Mas a pergunta final não é sobre eles. É sobre nós.
Quem continua votando no amigo do primo que “resolve as coisas”?
Quem troca voto por emprego?
Quem aplaude o vereador que traz festa, mas não fiscaliza contrato?
Quem finge não ver porque “todo mundo faz”?
Enquanto o eleitor tratar mandato como moeda de troca, o vereador continuará sendo comerciante. E, como em todo comércio, haverá liquidação.
Portanto, talvez a pergunta não seja “por quanto um vereador se vende?”, mas “por quanto o eleitor se deixa comprar?”
Se a resposta for barata, não adianta reclamar do produto.