Hoje observei, com o misto habitual de espanto e cansaço, uma postagem na rede social do prefeito Jânio Natal comemorando a adesão de um ex-presidente da Câmara de Vereadores — também ex-secretário de governo no tempo da prefeita Cláudia Oliveira, que se diz petista e personagem conhecido da fauna política local. Segundo o próprio currículo, trata-se de alguém que fez lambanças na Casa do Povo e que já teve contas rejeitadas pelo TCM e até mesmo seus direitos políticos cassados. Nada disso, ao que parece, atrapalhou a celebração pública da nova “aliança”. Não que o prefeito esteja errado, já que com certeza quem o procurou se ofecerendo foi o novo "amigo" e partidário.
Pelo contrário: a indecência foi descrita, como sempre, como um grande feito político. Um marco histórico. Um encontro que resultou numa conversa “maravilho$a”, como descreveu o próprio ex-vereador, só que com cifrão no lugar do “s”.
Só faltou informar o detalhe realmente relevante: quanto custou a tal maravilha. Foi em dinheiro vivo? Pix? Emprego para si? Cargo para parente? Ou um lugarzinho confortável na folha de pagamento municipal, onde centenas recebem religiosamente todo mês, faça sol ou faça tempestade moral?
ALIANÇA OU TRAIÇÃO PROFISSIONALIZADA?
Mas talvez seja ingenuidade perguntar. Afinal, chamar isso de “aliança” já é um eufemismo respeitável. O nome correto é traição profissionalizada, prática antiga e plenamente institucionalizada na política de Porto Seguro, e que ocorre de 2 em 2 anos. O balcão de negócios continua funcionando a pleno vapor — e tende a ampliar o horário de atendimento à medida que o ano eleitoral de 2026 se aproxima.
Nada disso, convenhamos, surpreende. Nem do lado de quem compra, nem do lado de quem, feito prostituta política, se oferece à venda. Com todo respeito, é claro, às mulheres e que muitas vezes precisam vender o seu corpo para alimentarem suas famílias. Cada qual opera com o seu próprio código ético — quando existe algum.
Não vale nem a pena discutir a negociata em si, porque todos, sem exceção, os que gravitam em torno do modelo atual de poder têm um objetivo comum e inconfessável: sobrevivência financeira. Ideologia, projeto de cidade, compromisso público — tudo isso fica para os discursos de ocasião.
A POBREZA E O DESTINO FINAL DE QUASE TODOS
O que realmente merece reflexão é o destino final dessas pessoas e quanto tais "alianças" custam aos cofres públicos. .
E aqui o assunto deixa de ser apenas político e passa a ser humano, social e até trágico.
O caso desse ex-vereador vendilhão não é exceção. É regra. Sem citar nomes — para não constranger ainda mais famílias já castigadas pela realidade — basta observar o paradeiro dos ex-edis da cidade: 99% vivem hoje uma situação de pobreza, degradante, constrangedora e silenciosa. Aqueles que se diziam poderosos, indispensáveis, articuladores, hoje mal conseguem sustentar a própria casa.
Quando se elegem, sob o pretexto de “ajudar o povo” e “mudar a cidade”, esquecem de um detalhe elementar: a política é provisória. Não é carreira, é circunstância. Não é profissão, é mandato. A única estabilidade real no serviço público vem do concurso — todo o resto é ilusão temporária.
A DOCE E TRÁGICA ILUSÃO
O problema é que, embalados pelo dinheiro fácil, sem metas, sem cobrança, sem horário e sem produtividade, vereadores, assessores e “lideranças” passam a acreditar que aquele padrão de vida é permanente. E então cometem o erro fatal: param de estudar, param de se qualificar, param de evoluir. Quando o mandato ou a assessoria acaba — e sempre acaba — não sabem mais viver fora da bolha.
O dinheiro que, na vida privada, é suado, disputado e difícil, passa a cair na conta todo mês, chova ou faça sol. Cria-se um vício. E como todo vício, ele cobra seu preço.
Quando chega a hora de voltar à realidade, descobrem que não são mais competitivos, não têm profissão atualizada, não têm mercado e, pior, não têm reputação. Resultado: afundam. E, junto com eles, afundam suas famílias e até mesmo casamentos.
SEMPRE OS MESMOS
Por isso – e exatamente por isso - são sempre os mesmos rostos que reaparecem na política. Sempre os mesmos que se vendem. Sempre os mesmos que se humilham. Observe os antigos “assessores” ou “vereadores”: quantos prosperaram fora da política? Quantos construíram uma vida digna, estável, respeitável? Nenhum. No máximo, raros foram os que retornaram às suas atividades. Todos em geral regrediram. Alguns sobrevivem orbitando outros gabinetes, como satélites sem luz própria, porque esqueceram completamente como é a vida real.
E aí vale a reflexão final, caro leitor: às vezes é ganhando que se perde — e perdendo que se ganha.
Nada é mais caro do que vender a própria alma e a consciência por alguns trocados. Nada destrói mais do que defender o indefensável em troca de conveniência. O prejuízo financeiro pode até ser superado, mas o prejuízo moral — esse se espalha, contamina a família, corrói o nome e deixa marcas permanentes.
A vida real é dura, sim — no bom e no mau sentido. Mas ela é justa. As leis universais não falham. A conta sempre chega. E quando chega, não aceita parcelamento, não admite desculpas e não reconhece alianças “maravilho$as”.
Quem se vende, no fim das contas, descobre tarde demais:
não merece ser comprado.