APEDINDO

Por  Contraponto

 

Em tempos de redes sociais, onde tudo é escândalo por 24 horas e esquecimento nos 30 segundos seguintes, certos movimentos políticos conseguem a proeza de parecer novidade, mesmo sendo mais antigos que promessa de campanha. Eis que surge a mais nova tendência entre os vereadores das cidades do extremo sul baiano: o pedido informal de "asilo político" em administrações vizinhas.

 

A cena começa a se repetir com regularidade quase religiosa: vereadores de Eunápolis e de Santa Cruz Cabrália atravessam os limites municipais e aparecem sorridentes ao lado do prefeito Jânio Natal, em Porto Seguro. As fotos ganham as redes acompanhadas de legendas cuidadosamente construídas: "visita de cortesia", "fortalecimento de laços políticos", "busca por melhorias para a região". Tudo muito bonito, muito institucional. Mas a verdade, como sempre, é bem mais mundana.

 

O QUE VALE É SÓ O DINHEIRO MESMO 

 

O que está em jogo não é projeto regional, nem visão de futuro. O que esses parlamentares querem, com a sutileza de um caminhão desgovernado, é dinheiro. Mais especificamente: apoio financeiro para as campanhas eleitorais de 2026, onde nomes como Jânio Júnior e Cláudia Oliveira já despontam como herdeiros naturais dos velhos coronéis da região.

 

A estratégia é simples e conhecida: barganhar apoio em troca de favores. E como os atuais prefeitos, Robério Oliveira e o próprio Jânio Natal, já estão com a casa cheia de compromissos assumidos desde 2020, o bolso não abre com tanta facilidade. Afinal, boa parte desses vereadores já recebeu apoio, cargos e verbas suficientes para manter a fidelidade política até a próxima encarnação.

 

Diante disso, a solução é migrar: se Robério fecha a torneira, corre-se para Jânio. Se Jânio se recusa a bancar, volta-se a Robério. Uma espécie de leilão moral onde o apoio é vendido ao melhor financiador. O nome disso? Pragmatismo eleitoreiro, vendido sob a embalagem de insatisfação democrática.

As redes sociais, como sempre, percebem antes da imprensa. Leitores comentam: "Por que vereadores de uma cidade buscam alianças em outra?". É uma boa pergunta, que não precisa de CPI para ser respondida. Basta seguir o rastro do dinheiro. A insatisfação não é com gestão, é com a escassez de verba.

 

SÓ TEATRO 

 

O eleitor, que paga a conta desse teatro, assiste a tudo entre a indignação e o sarcasmo. Esses vereadores, que juram defender o povo, vendem seu mandato com a naturalidade de quem vende um carro usado. E ainda aparecem como vítimas do sistema, quando, na verdade, são parte essencial da engrenagem que faz a política local parecer um mercado persa.

 

Em política, como na vida, quem se vende como mulher da vida não merece ser comprado. Mas sempre haverá quem compre, enquanto houver quem vote.

 

Que o eleitor lembre disso em 2026.