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Há cidades que têm praias bonitas, história rica, cultura vibrante. E há Porto Seguro — que, além de tudo isso, oferece a cada quatro anos um espetáculo gratuito de circo político que faria corar até os mais criativos roteiristas de novela.

 

É a temporada das “adesões”.

 

Não confundir com convicções, coerência ou, Deus nos livre, princípios. Adesão, por aqui, é um conceito mais, digamos assim ... maleável. Funciona como promoção de supermercado: muda toda semana, depende da oferta e, claro, do bolso do freguês — ou melhor, do candidato.

 

Com a aproximação das eleições, ressurge esse fenômeno curioso, quase migratório, digno de documentário do Discovery Channel: lideranças que, até ontem, juravam amor eterno a um candidato, hoje aparecem sorridentes ao lado de outro, como se sempre tivessem sido amigos de infância, padrinhos de batismo e confidentes de travesseiro.

 

É bonito de ver. Emociona. Acredita na honestidade e na adesão natural  dessas pessoas  quem quer.

 

 

DA ÁGUA PARA O VINHO VIA PIX

 

Principalmente quando a legenda é: “apoio declarado após reconhecer o excelente trabalho do candidato”.

 

Dá vontade de perguntar: reconhecer quando? Ontem à noite, depois do PIX cair? Ou foi de manhã, junto com a promessa de um cargo com ar-condicionado e salário garantido?

 

Porque, sejamos francos — e Porto Seguro, nesse quesito, não é exatamente um convento — ninguém muda de lado por iluminação divina. Não é epifania. Não é consciência política. É matemática simples: quanto tem, quanto paga e quanto rende.

 

E o mais fascinante é a naturalidade. Ninguém mais se dá ao menos o trabalho de disfarçar. Até mesmo pastores transformam seus púlpitos em balcão de negócios. A promiscuidade eleitoral deixou de ser bastidor e virou vitrine. Está tudo ali, escancarado, como se fosse parte do folclore local — e talvez já seja mesmo.

 

SEMPRE OS MESMOS

 

Os mesmos nomes, sempre eles, tal qual moscas varejeras, orbitando o poder como satélites de baixa autonomia. Passam por um, dois, três grupos políticos, com a leveza de quem troca de camisa. Ontem eram fervorosos defensores de um projeto; hoje, críticos indignados; amanhã, novamente convertidos — tudo conforme a direção do vento e, principalmente, a espessura do envelope.

 

 

Curiosamente, fora desse ecossistema político, a vida não costuma ser tão generosa com essas lideranças itinerantes. No mundo real, aquele onde é preciso acordar cedo, trabalhar, competir e produzir, o desempenho costuma ser... digamos... discreto.

 

Talvez por isso a política seja tão atraente: nela, o mérito pode ser substituído por proximidade, e a competência, por conveniência.

 

E assim se forma um ciclo quase perfeito. De quatro em quatro anos, reaparece a oportunidade de “dar uma mordida”, garantir uma nomeação, assegurar um contracheque temporário — desses que duram enquanto dura o mandato, ou a paciência de quem nomeou.

 

ESTUDAR E SE QUALIFICAR QUE É BOM, NADA

 

Enquanto isso, a ideia de serviço público como algo técnico, estável e baseado em mérito — via concurso, por exemplo — vai sendo tratada como detalhe menor. Afinal, estudar dá trabalho. Muito mais fácil é investir na arte da adesão: flexível, adaptável e, sobretudo, rentável no curto prazo.

 

O problema é que o curto prazo, como tudo na política, também passa.

 

E quando passa, sobra o quê? Currículos vazios, reputações remendadas e aquele pequeno constrangimento — para quem ainda tem — de explicar por que ontem se dizia uma coisa e hoje se diz exatamente o contrário, com a mesma convicção teatral.

 

Mas talvez o mais interessante nessa história toda nem seja o comportamento dos políticos que compram apoios. Esses, afinal, estão apenas jogando o jogo como ele é.

 

A questão mais incômoda é outra: quanto custa, afinal, a adesão de cada um dos apoiadores que de 4 em 4 anos juram fidelidade eterna aos seus líderes?