
No Brasil, quando a água começa a subir demais lá em cima, alguém sempre acaba jogado no rio.
Desta vez, escolheram os juízes.
De repente, como num passe de mágica institucional, ao menos se depender da disposição da maioria dos ministros do STF, o grande debate nacional virou os tais penduricalhos: auxílio disso, verba daquilo, teto constitucional, moralidade administrativa. Um desfile completo de indignação — organizado, barulhento e, sobretudo, conveniente.
Não que o tema seja irrelevante. Não é.
Mas o timing… ah, o timing. Justamente quando o STF é desnudado e se descobre um antro de corrupção sem precendentes na história do Brasil?
BOIS DE PIRANHA
Enquanto tenta se acender o holofote sobre Código de Ética, contracheques e benefícios, outras discussões — muito mais sensíveis e graves — seguem fora de cena, em silêncio quase profissional por parte dos 11 ministros, afora Luiz Fux e André Mendonça. A atenção pública do restante é conduzida com precisão cirúrgica: olha-se para onde faz barulho, não necessariamente para onde faz diferença.
E funciona.
A plateia se divide, as redes fervem, os especialistas de ocasião surgem aos montes — e, no meio disso tudo, o foco real, que é a corrupção sistêmica na mais alta Corte do país, escorre pelos dedos como água.
Os juízes de base, que pouco ou nada têm a ver com os grandes jogos de poder, viram símbolo do problema. Viram exemplo. Viram, literalmente, bois de piranha.
Porque no Brasil institucional há uma lógica simples:
quando o risco aumenta no topo, o desgaste é redistribuído na base, embora se saiba que quem realmente vende sentenças por cifras milionárias no Brasil não são os juízes, mas sim desembargadores e ministros.
No fim, o sistema se protege discutindo o acessório como se fosse essencial.
E o essencial?
Bom… esse continua onde sempre esteve:
fora do alcance do debate fácil, longe do barulho, protegido pelo silêncio dos ministros.
Enquanto isso, o aquário segue de vidro.