
Não é preciso ser nenhum Pitágoras, tampouco um discípulo iluminado de Arquimedes, para entender o milagre matemático que está acontecendo em Porto Seguro. O nome da fórmula mágica? Zona Azul. O autor da façanha? Ele mesmo, o infalível, imaculado e, claro, multiempreendedor prefeito Jânio Natal, acompanhado fielmente por seu escudeiro e aspirante ao trono Paulinho Toa Toa, nome de super-herói de gibi municipal.
A narrativa é simples: o prefeito que, em 2021, posava de redentor e mandava a famigerada Zona Azul para o exílio eterno, agora volta com ela nos ombros, sorrindo para os flashes e alegando que atende a "pedidos da sociedade". Só faltou dizer que foi o Papa quem sugeriu. A verdade, porém, é mais terrena – e milionária.
A tarifa que era de R$ 2,00 em 2021, com inflação de 35% no período, agora custa R$ 3,50. Isso mesmo, um aumento de 150%, porque, afinal, Porto Seguro virou Mônaco da noite pro dia e estacionar por aqui deve ser considerado um privilégio digno de tributo real.
CADÊ O MINISTÉRIO PÚBLICO?
E cadê os descontos para os moradores e para quem fica mais de duas horas? Sumiram. Cadê a transparência dos lucros? Desapareceu. Cadê o Ministério Público? Boa pergunta. Na época da ex-prefeita Cláudia Oliveira, qualquer desvio de 1 milímetro da cartilha oficial gerava uma romaria para o gabinete da promotora Lair Azevedo. Já com Jânio, o prefeito à prova de escândalos (ou de investigações), o MP parece estar num retiro espiritual. Nada vê, nada ouve, nada pergunta.
E olha que estamos falando do mesmo Jânio Natal que já foi condenado à prisão por fraude em licitação de combustíveis e só não sentiu o peso da lei porque, vejam só, o processo prescreveu no conforto de algum gabinete amigo no STF.
Agora, ele volta com tudo, mirando o topo da pirâmide financeira da Zona Azul, prestes a ser cassado – mas não sem antes tentar deixar seu fiel vice, Paulinho Toa Toa, confortavelmente instalado no trono municipal. Afinal, os contratos milionários não vão se assinar sozinhos, né?
MELHOR QUE A MEGA-SENA
Vamos aos números. Quer saber como enriquecer da noite pro dia? Esqueça a Mega-Sena. Seja sócio da Zona Azul de Porto Seguro. Pegue aí umas 4.000 vagas no centro da cidade, com cobrança de R$ 3,50 por hora. Resultado? R$ 14.000,00 por hora. Multiplica por 10 horas de funcionamento diário: R$ 140.000,00 por dia. Em um mês, são R$ 4,2 milhões.
Agora some o Baianão, Arraial, Trancoso, período noturno, alta temporada… Pronto: temos aí um faturamento mensal realista de R$ 6 a 7 milhões, sem muito esforço. Isso, claro, sem falar na famigerada Taxa de Preservação Ambiental ou na indústria das multas.
E quanto disso vai para os cofres públicos? Dizem que 16% do lucro. Mas quem fiscaliza? Ninguém. E quanto custa operar o sistema? Meia dúzia de tablets, alguns coletes, um app meia-boca e dois estagiários. Se gastarem R$ 1 milhão para montar isso tudo, é muito. Ou seja, um lucro líquido de mais de R$ 4 milhões por mês, livre, leve e solto para "reinvestir" sabe-se lá onde. Seria naquele condomínio de mansões de Guarajuba ou em mais algum conjunto de lojas nos melhores shoppings de Salvador? Só Deus sabe. E talvez o prefeito. E talvez o secretário de finanças. E, com alguma sorte, o Paulinho Toa Toa, nosso prefeito honorário em treinamento.
O CIDADÃO PAGA A FARRA
E aí, cidadão, o que você ganha com isso? A conta. Quem paga a farra é você. Literalmente. Estacionar virou luxo. O direito de ir e vir agora custa R$ 3,50 por hora.
O asfalto continua esburacado, os bairros largados, a saúde pública respirando por aparelhos. Mas o caixa da empresa da Zona Azul está rindo à toa. Tão rindo mais que o papagaio de pirata Toa Toa.
Portanto, fica o conselho: seja amigo do prefeito. Invista em Zona Azul. É retorno certo e garantido, fiscal nulo e lucro milionário. E não se preocupe com a eleição: se tudo der errado, sempre dá para colocar o vice. Afinal, o importante não é cuidar da cidade – é manter os contratos no cabresto.