COPI

Dizem que a tecnologia veio para facilitar a vida. Veio mesmo — mas não exatamente como imaginávamos. Em certos casos, ela não facilita: ela desmonta. Desmonta versões, desmonta certezas apressadas, desmonta acusações que pareciam sólidas como concreto, mas que, vistas de perto, eram feitas de areia.

 

Hoje, com os instrumentos de investigação disponíveis — desses que não aparecem em filme policial de domingo à noite — já não é preciso muito esforço para saber por onde alguém andou, com quem falou, a que horas parou e até quanto tempo ficou. Os dados estão todos lá, silenciosos, esperando para contar uma história que não grita, não opina, não exagera. Apenas registra. Que o diga o famoso Daniel Vorcaro. 

 

Não se trata de adivinhação. Trata-se de cruzamento de informações. Antenas de telefonia que indicam a localização aproximada de um celular. Registros de chamadas. Dados cadastrais. Movimentações financeiras digitais. Tudo isso forma um mapa — não perfeito, mas suficientemente preciso para separar o possível do impossível.

 

E aí começa o problema.

 

O CASO ULDURICO JÚNIOR

 

Porque, quando a tecnologia entra em cena, ela não tem compromisso com narrativas. Não se importa com convicções prévias, nem com versões convenientes. Ela simplesmente mostra onde o sujeito estava. E, às vezes, isso é devastador — não para o acusado, mas para a acusação.

 

O caso recente envolvendo o ex-deputado federal Uldurico Júnior na investigação conduzida pelo Gaeco da Bahia ilustra bem esse novo mundo. Com base em dados técnicos, rastreamentos e cruzamentos, é possível reconstruir trajetórias com um grau de precisão que, até pouco tempo atrás, seria considerado ficção científica.

Some-se a isso o rastreamento de transações financeiras, principalmente via Pix, e o conteúdo extraído de aparelhos celulares, e temos um retrato quase completo da vida prática de qualquer cidadão.

 

Aliás, sobre celulares: virou peça central. O velho hábito de “se livrar do aparelho” como solução mágica perdeu totalmente  a validade. Hoje, o telefone não é apenas um meio de comunicação — é um arquivo ambulante, um histórico detalhado da existência recente de quem o carrega. Mensagens, contatos, deslocamentos. Tudo fica. E, em muitos casos, tudo volta.

 

O curioso — ou preocupante, dependendo do ponto de vista — é que essa mesma tecnologia que parece implacável para incriminar também é implacável para inocentar.

 

E é aí que entra um caso que merece atenção.

 

RELATÓRIO QUE INOCENTA OS ACUSADOS

 

Já na investigação sobre o assassinato dos professores Álvaro e Elisney, por exemplo, em que pese naquele tempo as investigações se resumissem apenas nas escutas telefônicas e nas  ERBs -  Estações de Rádio Base -  a  acusação seguiu um caminho clássico: baseou-se, essencialmente, na palavra de terceiros — no caso, dois traficantes confessos presos em uma outra operação policial.

 

Uma narrativa absolutamente fantasiosa e contraditória  foi construída por dois promotores aparentemente ávidos por holofotes,  apontando policiais militares como executores do crime. Tudo parecia encaminhado dentro da lógica tradicional: testemunho, denúncia, processo. Mas havia um detalhe novo nesse enredo antigo. Os dados.

 

Isso porque o  Relatório de Inteligência da Polícia Civil da Bahia, elaborado com base em interceptações telefônicas e análise de registros de ERBs, trouxe uma informação simples e incômoda: os acusados não estavam no local do crime. Nem antes, nem durante, nem depois.

 

Simplesmente não estavam.

 

E isso não é uma opinião pessoal minha. É um dado técnico. Está no processo e pode ser checado por qualquer leitor ou estudante de Direito que  queira acessá-lo.

 

Mais do que isso: os registros indicavam que um dos policiais se encontrava em outra cidade, enquanto o outro estava em um evento público, cercado de testemunhas. Ou seja, não se tratava apenas de ausência de prova — tratava-se da presença de prova em sentido contrário.

 

  A ACUSAÇÃO QUE NÃO SE SUSTENTA

 

Diante disso, surge uma pergunta que não deveria ser difícil de responder: como sustentar uma acusação quando a própria evidência técnica a contradiz?

 

A resposta, infelizmente, nem sempre é lógica.

 

Porque, no Brasil, ainda existe uma certa dificuldade em aceitar que a realidade pode não coincidir com a narrativa construída. E, pior, que a tecnologia — essa mesma que tanto impressiona quando confirma suspeitas — também pode servir para desmontá-las completamente.

 

O caso dos professores de  Porto Seguro é emblemático por isso. Ele mostra que estamos vivendo uma transição: saímos de um modelo baseado fortemente em versões e testemunhos para um cenário em que os dados têm peso crescente. E dados, ao contrário das versões, não se intimidam com  a atuação de um ou dois representantes de um  MP inconsequente. 

 

Eles apenas mostram.

 

Para quem quiser entender melhor o que aconteceu — e, principalmente, o que não aconteceu — o material está disponível. Basta ler. Basta querer saber. Basta não querer ser enganado.  Não exige interpretação sofisticada, nem teoria jurídica complexa. Exige apenas disposição para encarar um fato cada vez mais evidente: em tempos de tecnologia avançada, acusar pode continuar sendo fácil.

 

Difícil, agora, é sustentar a acusação quando os próprios registros dizem o contrário.