
Nem tanto ao céu, nem tanto à terra — dizia meu pai com a sabedoria simples dos que aprendem a ver o mundo com os pés no chão. E hoje, quando o mundo acorda com a notícia de que os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro e o conduziram sob custódia após uma operação militar surpreendente, ficamos com um alerta que supera qualquer retórica ideológica.
Não se trata aqui de celebrar uma intervenção externa — isso é controverso, perigoso e juridicamente complexo. Mas o fato de que um líder acusado de crimes graves contra a ordem pública, narcotráfico e corrupção institucional tenha sido retirado de cena mostra a crise profunda em que modelos políticos baseados na captura de instituições terminam.
E é neste espelho venezuelano que devemos nos olhar. Porque o Brasil, embora em outro contexto, caminha por trilhas que não são tão diferentes quanto gostaríamos de acreditar. A captura de Maduro expõe as consequências de um sistema onde o poder se sobrepõe à lei — onde os tribunais superiores são cooptados, a imprensa silenciada, as Forças Armadas alinhadas ao comando político e o tecido institucional corroído por práticas clientelistas e corrupção sistêmica.
Aqui, não se trata de fazer analogias fáceis ou reduzir a realidade brasileira a chavismo ou bolivarianismo. Trata-se, antes, de reconhecer que quando instituições deixam de cumprir seu papel de freios e contrapesos, o Estado de Direito se esvai. A Venezuela é a prova visível desse processo, e sua atual crise internacional não é obra do acaso: é fruto de anos de captura institucional e de impunidade seletiva.
A NOSSA TRISTE E PREOCUPANTE REALIDADE
No Brasil, muitos continuam a acreditar que certas figuras públicas estão acima das leis ou que mecanismos jurídicos podem ser moldados à conveniência política, como o faz, reiteradamente, o nosso STF. E esse equívoco não surge do nada: é alimentado por decisões judiciais bizarras, sigilos inexplicáveis, interferências indevidas do Ministério Público e de cortes supremas, e uma narrativa dominante que protege os poderosos enquanto expõe os cidadãos comuns às incertezas jurídicas.
A operação que resultou na captura de Maduro — e, segundo relatos, no seu traslado para responder por acusações de narcoterrorismo nos EUA — serve de lembrete duro: quando governos falham em responsabilizar elites por corrupção e crimes de alta magnitude, outras forças podem preencher o vazio.
Para o Brasil, este é um sinal bastante claro de que mais dia ou menos dia a casa pode cair. E certamente, um dia haverá de cair. Tanto pelo escândalo do INSS, como pelo escândalo do Banco Master e suas relações nada republicanas com ninguém menos do que a advogada e esposa do ministro Alexandre de Moraes, cujo patrimônio pessoal somente em 2025 cresceu 232% em relacão a 2024, faturando R$ 80 milhões de reais, apenas para citar alguns dos nossos muitos escândalos jurídicos.
Ou seja, não adianta invocar soberania ou retórica ideológica quando a corrupção institucional corrói a confiança pública. O alerta é universal: instituições fortes, independentes e imparciais não são luxo — são condição de sobrevivência política e social.
Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Mas definitivamente com os olhos abertos para não repetir o mesmo erro que hoje a Venezuela paga tão caro — em relações internacionais, em estabilidade interna e em sofrimento humano coletivo.