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O Brasil é um país tão original que conseguiu reinventar até a Justiça. De um lado, temos milhões de pessoas que viram sua vida virar de cabeça para baixo por causa de um protesto político. Do outro, um ministro que parece ter assumido a função de tutor da democracia — versão “pai bravo”, que pune a criança desobediente com castigos exemplares, mas sem jamais olhar para os próprios erros.

 

Alexandre de Moraes, presidente do STF, transformou-se em algo único: juiz, acusador, investigador e, quando necessário, legislador.

 

É uma espécie de “poder absoluto” dentro de um regime que se apresenta como democrático. O problema é que, no lugar de segurança jurídica, instalou-se o medo. Basta uma postagem nas redes, uma frase atravessada ou até um meme para alguém acordar com a PF batendo à porta.

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CENA SURREAL 

 

A cena é surreal: enquanto corruptos confessos desfrutam de liberdade e poder, mães de família são condenadas por ironia em batom, manifestantes de esquina são tratados como terroristas, e cidadãos comuns passam anos presos preventivamente sem julgamento. Tudo em nome de proteger a democracia.

 

É a democracia mais frágil do mundo — precisa de blindagem 24 horas, com censura, polícia política e o peso desproporcional de penas exemplares.

 

É curioso: quanto mais se fala em Estado Democrático de Direito, menos direito o cidadão comum parece ter. A liberdade virou concessão temporária. O contraditório virou ofensa. A divergência virou crime. E quem deveria ser o guardião da Constituição virou, ironicamente, o seu maior intérprete exclusivo — como se o texto só tivesse validade quando passa pelo seu crivo pessoal.

 

ESPETÁCULO DO PODER 

 

No fundo, o que se tem é um espetáculo de poder. O ministro veste a toga como quem veste uma armadura e desfila pelo palco político com ares de justiceiro implacável. Só que, diferentemente dos heróis de quadrinhos, seu poder não vem de um ideal de liberdade, mas da capacidade de silenciar quem discorda.

 

A história ensina: todo justiceiro absoluto acaba, cedo ou tarde, vítima da própria cruzada. Não porque alguém o derrube, mas porque nenhuma sociedade suporta viver eternamente sob o regime do medo.

 

O Brasil, um dia, vai respirar liberdade de novo. E quando esse dia chegar, talvez a maior lembrança deixada por este período seja a ironia de uma democracia que precisou prender, censurar e calar para se dizer “forte”.