É impressionante a capacidade que certos políticos têm de se apegar ao cargo como se fossem náufragos agarrados a um tronco no meio do oceano — não pela missão pública, claro, mas pelos contratos. Jânio Natal, o prefeito de Porto Seguro, parece estar exatamente nesse momento de desespero elegante: ainda sentado na cadeira, mas já de olho no seu bote salva-vidas chamado Paulinho Toa Toa — seu vice, escudeiro, papagaio de pirata, e agora herdeiro presumido da máquina pública.
Paulinho, aliás, ganhou esse apelido carinhoso de ‘Zé dos Cargos’ com todo merecimento. É um daqueles personagens que orbitam em torno do poder com tanta devoção que já não se sabe onde termina o prefeito e começa o vice.
Se Jânio espirra, Paulinho diz “saúde”. Se Jânio anda, Paulinho faz sombra. Só falta mesmo dormirem de conchinha — porque, no mais, parecem uma simbiose política perfeita: um finge que governa, o outro finge que aprende.
A ironia, no entanto, é que enquanto encenam esse teatro eleitoral barato, em plena luz do dia e com dinheiro público, o cerco vai se fechando. O Supremo Tribunal Federal, aquele mesmo que não perdoou nem o ex-presidente da República, Bolsonaro — com toda sua força política, milhões de eleitores e advogados de luxo — parece ser o palco onde finalmente Jânio Natal vai deixar de atuar.
E diferentemente do que muitos acreditam, desta vez não há pix de empresário, jeitinho de bastidor ou embromação jurídica que dê conta. O julgamento é sério, é nacional, e as togas estão mais vigiadas do que nunca. A festa acabou, senhores.
O PESADELO DO PREFEITO
E se a ministra Carmem Lúcia for mesmo a relatora do processo — ela que já deu sinais claríssimos de repulsa a esse modelo de prefeito itinerante que migra de cidade em cidade como se fosse vendedor de tapete —, o destino do nosso Jânio estará selado. Afinal, não é todo dia que um político é pego no ato explícito de tentar burlar as regras do jogo com estelionato eleitoral travestido de esperteza regional.
Jânio achou que poderia enganar o tempo, o TSE e o povo, quando em 2016 elegeu-se em Belmonte, foi diplomado, renunciou em tempo recorde e tentou fazer parecer que nada disso valia como mandato. Mas, como diz o ditado, quem planta cobra, acaba mordido. Seus próprios advogados — aqueles mesmos que prometeram impunidade vitalícia — hoje provavelmente já estão revisando currículos.
A ÚLTIMA CARTADA
E agora, com a batata assando, o que faz o prefeito? Ora, parte para a mais explícita campanha eleitoral em favor de Paulinho Toa Toa, como se Porto Seguro fosse seu feudo particular. Obras relâmpago brotam do chão como mágica — ponte para o Arraial d’Ajuda, recapeamento de ruas — tudo isso com um objetivo só: iludir o eleitor mais uma vez. São projetos de fachada, pensados para durar até o último dia antes da eleição, como foi feito antes. A encenação é a mesma; só mudam os figurantes.
E quem conhece a realidade da cidade sabe: Porto Seguro está aos cacos. Buracos não são mais tapados; são incorporados ao cenário urbano. A máquina pública virou cabide de emprego e fábrica de fantasmas. O dinheiro secou. Os serviços públicos estão em colapso. Mas nada disso impede que Jânio siga promovendo um Paulinho empolgado, feito garoto-propaganda de cimento vencido.
A verdade é que o desespero do prefeito não é pela cidade. É pelo legado — aquele bem pouco republicano — dos contratos milionários de lixo, obras, saúde, educação, da indústria das multas, da Zona Azul e da Taxa de Preservação Ambiental. Quem conhece os bastidores sabe que ali está a chave para uma aposentadoria nababesca, digna de quem “se deu bem” às custas do erário.
Porto Seguro virou palco de um espetáculo farsesco. A prefeitura finge que governa, a população finge que acredita, e a Justiça — espera-se — finge que nada vê, mas prepara discretamente o golpe final. Resta aguardar se a cassação será o último ato ou apenas o intervalo de uma peça que insiste em zombar da inteligência alheia.
Coisas bem da Bahia. Coisas bem do Brasil.
