
O azul que mancha o bolso e a paciência de quem mora e visita Porto Seguro, a cidade que vive de vender sol, praia e história, parece agora ter resolvido vender também o ar que se respira e o chão onde se pisa. A cada novo projeto da atual gestão, renova-se o mesmo roteiro: promete-se moralidade, eficiência e modernidade — e o que se entrega é mais um capítulo da velha novela da esperteza administrativa.
O novo episódio atende pelo nome de Zona Azul, com enredo já conhecido e final previsível. Não é uma ideia ruim em si. Organizar o estacionamento e dar rotatividade às vagas é uma medida civilizada, adotada em qualquer cidade minimamente organizada.
O problema é o modo Porto Seguro de fazer gestão: transforma-se um instrumento público em mais uma forma de arrecadar — e, consequentemente, de sumir com o dinheiro arrecadado, tradição local que já dura cinco anos e segue firme como o sol de janeiro.
A promessa que evaporou como as verbas públicas
Durante a campanha de 2020, o prefeito Jânio Natal subiu no palanque com um discurso firme: “A população não vai mais pagar Zona Azul. Esse absurdo vai acabar”. E acabou mesmo — por um tempo. Multou a empresa anterior em R$ 19 milhões, fez pose de justiceiro e ganhou manchetes como o homem que libertou o povo do estacionamento pago.
Quatro anos depois, como num roteiro de tragicomédia, a cobrança volta, bem mais cara, mais confusa e mais abusiva. A hora de estacionamento em Porto Seguro já é uma das mais caras da Bahia, custando quase o dobro do que se paga em Salvador.
A ironia é que, ao contrário da capital, aqui não há sistema de transporte alternativo eficiente, tampouco vias estruturadas. Em suma: paga-se caro por um serviço precário, sem contrapartida visível, e ainda com o prazer cívico de financiar um caixa municipal que ninguém sabe para onde vai.
Ademais, essa desculpa esfarrapada de que foi a Associação Comercial e a CDL que pediram a volta da Zona Azul, cá entre nós, essa não cola, por que se isso fosse realmente verdade, estas mesmas instituiçoes teriam pedido a permanância do antigo modelo, muito mais em conta, economicamente, que o atual. Ou não?
A mágica do desaparecimento
A cidade, hoje rica, graças à estruturação e eficiência administrativa dos governos de Abade e Cláudia, arrecada mais de R$ 1 bilhão por ano. Isso sem contar os empréstimos milionários que pipocam de tempos em tempos. Mesmo assim, Porto Seguro continua tropeçando na lama da má gestão: buracos nas ruas, esgoto nas praias, lixo acumulado, trânsito caótico, escolas sem estrutura, postos de saúde que mais parecem setoriais de espera.
A dívida do município com bancos já beira os R$ 700 milhões, e um novo empréstimo milionário de mais de R$ 100 milhões já está a caminho. Porto Seguro virou o paraíso dos credores e o inferno dos contribuintes. É a mágica da multiplicação das dívidas e do desaparecimento das melhorias. A cada novo empréstimo aprovado, desaparece um pouco mais o que resta da paciência da população.
A fantasia da preservação ambiental
Como se não bastasse a “revolução azul”, chegou também a Taxa de Preservação Ambiental — outro nome bonito para um imposto disfarçado. O objetivo, dizem, é proteger o meio ambiente. Nada mais justo, se não fosse o detalhe de que o meio ambiente em Porto Seguro está sendo destruído a olhos vistos.
A Ponta Grande, um dos redutos históricos e ecológicos mais importantes do município, vem sendo vítima de invasões e degradações constantes. O mangue sofre, a orla sofre, o rio sofre — e a prefeitura cobra uma taxa para “preservar” o que ela mesma não fiscaliza.
Querem comparar a cidade com Fernando de Noronha, Gramado e São Bernardo do Campo — como se fosse o mesmo mundo. Mas qualquer pessoa que tenha visitado essas cidades sabe que Porto Seguro não tem a mínima condição de se colocar no mesmo parágrafo ou patamar.
Noronha cobra, mas preserva; Gramado cobra, mas entrega; São Bernardo cobra, mas funciona. Porto Seguro cobra — e promete. O resto é conversa fiada com sotaque eleitoral.
O discurso da generosidade seletiva
Como se não bastasse, o prefeito ainda anuncia que estuda “destinar recursos da saúde para cidades vizinhas”. Generoso, não?
A cidade que ostentou, por quatro anos, o título de pior saúde pública da Bahia agora quer exportar recursos. Só não explicou quais — talvez os mesmos que desaparecem misteriosamente, junto com os buracos do orçamento.
É o tipo de discurso que só encontra eco em administrações que confundem marketing com gestão e com os bobos da corte de plantão, ou seja, aqueles que insistem em aplaudir e tributar a incompetência .
Porto Seguro virou um caso clássico de como se pode arrecadar muito e entregar quase nada. O dinheiro entra, mas o resultado não aparece. Talvez o problema não esteja na arrecadação — mas no destino.
O azul virou a cor oficial do desvio de rumo
Hoje, Porto Seguro é a verdadeira Cidade Azul. Azul da Zona Azul, azul da nova taxa ambiental, azul das placas, azul da promessa que esmaece no tempo. E, sobretudo, azul do oceano simbólico onde se afogam as verbas públicas, os projetos não concluídos e a esperança de quem ainda acredita que a cidade poderia ser o que merece ser.
Há quem diga que o prefeito costuma afirmar que “5% é comissão de corretor e 10% é de garçom”. Não é uma frase isolada. É uma filosofia clara de governo. E explica muita coisa. Porto Seguro virou uma administração movida por percentuais, e não por propósitos.
Entre o discurso e a realidade, um abismo de dívidas
O resultado é um paradoxo grotesco: uma cidade riquíssima, com uma das maiores arrecadações da Bahia, mas com infraestrutura de terceiro mundo. Um governo que fala em “modernização”, mas administra como se ainda estivéssemos nos tempos do coronelismo de beira de praia.
Enquanto o dinheiro escorre, as promessas se repetem. E a população — essa eterna financiadora da ineficiência — segue pagando caro para estacionar, para respirar e, agora, até para acreditar.
Conclusão: Porto Seguro ainda resiste — apesar da Prefeitura
Porto Seguro continua linda. Mas não por causa da administração municipal. Continua linda porque a natureza insiste em não desistir da cidade. O mar ainda é azul, o céu ainda brilha e a história ainda respira nas pedras e nas praias. Tudo isso **apesar** do governo, e não graças a ele.
O povo, esse sim, continua acreditando que um dia a honestidade administrativa chegará por aqui — talvez de carona em alguma balsa, se não cobrarem pedágio também para isso.
Até lá, Porto Seguro seguirá sendo a “Cidade Azul”: a cidade das mil e uma cobranças, dos mil e um empréstimos e dos mil e um mistérios sobre para onde foi parar o dinheiro que deveria ter mudado tudo — e não mudou nada.