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Chega uma hora da vida em que a pessoa cansa de conversa mole. O prazo de validade está ali, piscando no canto da tela, e não dá mais para fingir que não está vendo. Ou você encara a realidade, ou vira cúmplice dela. Não é filosofia. Isso chama-se   sobrevivência intelectual.

 

Talvez por isso eu nunca tenha tido entusiasmo pela advocacia criminal. Não por falta de respeito ao direito de defesa — que é cláusula pétrea — mas por falta de talento para defender o indefensável. Sempre achei mais simples: quem deve, paga. Quem não deve, não pode ser tratado como se devesse. Parece básico. Mas, pelo visto, não é.

 

TRANFORMANDO INVESTIGAÇÃO EM ESPETÁCULO 

 

O caso de Porto Seguro é um exemplo didático de como transformar uma investigação em espetáculo — e o espetáculo em sentença. Três juízes, um promotor e um antigo titular de cartório foram afastados há 2 anos atrás  com direito a tudo: operação com nome chamativo, acusações pesadas, manchetes vistosas e aquele ar solene de “agora vai”. Foi vendido como limpeza geral. Um choque de moralidade. Um divisor de águas.

 

E depois?

 

Depois, nada.

 

Dois anos se passaram. Repita: dois anos. Tempo mais do que suficiente para desmontar qualquer esquema criminoso — ou para admitir que ele não era exatamente o que disseram que era. Mas o que apareceu até agora? Silêncio. Um silêncio que não esclarece, não conclui e não explica. Só prolonga.

Quebraram sigilos de tudo que era lado. Bancário, fiscal, telemático. Reviraram a vida dos investigados do avesso. Fizeram exatamente o que se espera de uma investigação séria. Só esqueceram de entregar a parte final: o resultado.

 

CADÊ O RESULTADO DAS INVESTIGAÇÕES? 

 

Onde estão as provas robustas? Onde estão as denúncias consistentes? Onde estão as centenas de imóveis e o patrimônio milionário dos investigados? Onde está o fechamento da história? Ou será que a investigação parou na fase em que a acusação rende manchete, mas a prova dá trabalho?

 

Enquanto isso, os afastamentos vão sendo renovados com uma naturalidade impressionante. Como se fosse rotina administrativa. Acrescenta-se aqui uma suspeita, ali outra, reaproveita-se o material antigo, e pronto: mais um período longe do cargo. Sem prazo. Sem conclusão. Sem constrangimento.

 

E aí vem a pergunta incômoda: isso ainda é investigação ou já virou punição antecipada?

 

Porque, no papel, afastamento é medida cautelar. Na prática, virou pena sem sentença. Uma espécie de limbo institucional onde o sujeito não é condenado — mas também não volta. Fica ali, suspenso no tempo, assistindo à própria reputação ser demolida em câmera lenta.

 

E reputação, como se sabe, não tem recurso. Não tem segunda instância. Não tem revisão criminal.

 

Outro detalhe curioso: decisões judiciais passaram a ser tratadas como indício de irregularidade. Isso é simplesmente extraordinário. Quer dizer que, agora, o problema não é mais o crime — é a decisão do juiz? Desde quando discordar de sentença virou prova de corrupção? Para isso existem recursos, tribunais, instâncias superiores. Sempre existiram.

 

Se a moda pega, o recado é claro: juiz que decide demais começa a se explicar demais. E juiz que precisa se explicar o tempo todo deixa de julgar para começar a se proteger. É o tipo de avanço institucional que ninguém pediu.

E as instituições que deveriam cobrar explicações? Silêncio também. Um silêncio elegante, discreto, educado — e profundamente inconveniente. Todo mundo muito confortável enquanto a situação fica indefinida. Afinal, mexer nisso dá trabalho. E pode dar problema.

 

No meio disso tudo, ficam as pessoas. Com nome, sobrenome, família, história. Gente que foi jogada no centro de uma narrativa pesada e, até agora, não viu essa narrativa se transformar em algo concreto. Só em desgaste. Só em exposição. Só em prejuízo.

 

Não se trata aqui de dizer que são inocentes. Nem que são culpados. Trata-se de algo mais simples — e mais raro: terminar o que se começou.

 

Se houve crime, que se prove e se puna. Sem pena. Sem hesitação. Mas se não houve — ou se o que houve não chega nem perto do que foi anunciado — alguém precisa explicar por que essas pessoas continuam pagando essa conta.

 

Dois anos não são detalhe. São uma eternidade na vida de qualquer profissional. E, no serviço público, deveriam ser o limite do razoável — não o começo da prorrogação automática.

 

Porto Seguro não precisa de espetáculo. Precisa de conclusão.

 

Porque investigação que não termina não esclarece. Só desgasta.

 

E justiça que não decide deixa de ser justiça. Vira outra coisa.