
O Brasil discute um novo pacote anticrime como quem anuncia mais um feriado prolongado — muito barulho, pouca utilidade. A verdade crua, direta e indigesta é simples: enquanto não colocarem prefeituras e câmaras de vereadores dentro do alvo, qualquer pacote anticrime é só fantasia legislativa.
Porque hoje, no Brasil real, boa parte do crime organizado não está na favela — está no gabinete. Está no plenário. Está no cargo comissionado que aparece do nada para operar invasão, grilagem, contrato suspeito e acordo com chefões do tráfico como se fosse atividade institucional.
As cidades viraram território livre para vereadores que negociam terra como traficante negocia ponto de droga. Secretários que operam invasões como se estivessem organizando eventos oficiais. Servidores que montam mini-ORCRIMs dentro da prefeitura para roubar terras alheias com a frieza de quem imprime boletos.
O FILHO DO VEREADOR
E o exemplo recente de Porto Seguro é perfeito: o filho de um vereador, que mantém contratos de máquinas pesadas suspeitos com a prefeitura, invadindo área particular e alegando que “obedeceu ordem de chefão”. No Brasil de hoje, isso nem choca mais — apenas confirma o óbvio: o crime já atravessou a porta da frente do poder público e sentou na cadeira.
Enquanto isso, Brasília finge que combate o crime mirando o criminoso pequeno e deixando solto o criminoso oficial, o criminoso de crachá, o criminoso que ganha salário do contribuinte para fingir que é autoridade.
Se o governo quer ser levado a sério, que inclua no pacote anticrime o que realmente importa: vereador invasor, secretário grileiro, assessor ladrão, prefeito cúmplice — todos tratados como o que são: criminosos.
Sem isso, o pacote anticrime será só mais uma piada — e de mau gosto.
Enquanto isso não acontecer, o pacote anticrime continuará sendo apenas isso: um pacote. E vazio.